1) Defininção do termo

A expressão Pós-milenismo transmite a ideia de que Jesus Cristo retornará a Terra depois (‘pós’) do Milênio.

[1]

 

2) História do Pós-Milenismo

Deve-se observar que o Pós-milenismo possui algumas semelhanças com o Amilenisno. Na verdade, alguns estudiosos apontam que a divisão técnica entre os dois sistemas ocorreu apenas no século 19.[2] Por isso, muitas características do pós-milenismo podem sem encontradas em autores dos primeiros séculos da igreja. Alguns estudiosos, por exemplo, apontam que Eusébio de Cesárea, Atanásio de Alexandria e Agostinho de Hipona[3] tendiam ao pós-milenismo. Alguns também acreditam que o primeiro autor a ser claramente pós-milenista foi Joaquim Fiore (1135-1202).

O Dr. Paul Enns afirma que esta teologia foi mais popular no século 19, por causa do “otimismo e progresso da ciência, da cultura e do nível de vida em geral.”[4] Porém sua popularidade foi reduzida após a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.[5]

John Macarthur comenta esse fator histórico:

“De acordo com as opiniões geralmente otimistas dessas eras, o pós-milenismo floresceu nos séculos XVIII e XIX. O impacto do Iluminismo, da Revolução Industrial, o rápido ritmo de descoberta científica e a teoria da evolução de Darwin convenceu muitos de que a sociedade estava progredindo inevitavelmente em direção a uma utopia. Essa visão otimista estava em harmonia com pós-milenismo, que também ensinava que o mundo iria ficar melhor e melhor (embora por meio diferentes). Mas o horror paralisante da Primeira Guerra Mundial, a decadência moral dos Loucos Anos Vinte, os tempos difíceis da Grande Depressão, a loucura da matança dos judeus pelos nazistas, e a catástrofe mundial da Segunda Guerra Mundial trouxe um fim ao otimismo ingênuo, que prevalecia antes da Primeira Guerra Mundial… Nos últimos anos, no entanto, tem havido um ressurgimento de pós-milenismo em movimentos como a Teologia da Libertação, Teologia do Reino, e Teonomia.“[6]

 

3) Natureza do Reino Milenial

O milênio é compreendido como um longo período de paz e prosperidade resultado da conversão da grande maioria do mundo a Cristo. O bem, o amor, a saúde e a prosperidade serão a regra em todos os lugares e não mais uma exceção.[7] Alguns estudiosos chamam este período de uma era dourado para o mundo e o cristianismo.[8] Após esse longo período, no qual o bem prevalecerá, acontecerá a volta de Cristo e o Julgamento Final, que determinará o destino final de cada um.[9]

Loraine Boettner, proeminente autor pós-milenista, definou disse que o Pós-milenismo é:

 “…visão das últimas coisas que sustenta que o Reino de Deus já está agora sendo estendido no mundo através da pregação do Evangelho e da obra salvadora do Espírito Santo nos corações de indivíduos, que o mundo finalmente será Cristianizado, e que o retorno de Cristo ocorrerá no final de um longo período de justiça e paz comumente chamado o “Milênio”.”[10]

 

4) A Duração do Milênio

Alguns autores interpretam o número mil simbolicamente, entendendo que ele significa um longo período de tempo e não mil anos literalmente (Stanley Gentry, Lorraine Boettner e David Brow). Enquanto outros, especialmente os mais antigos, o veem como um período literal de mil anos (A. A. Hodge e os Puritanos).[11]

 

5) Aprisionamento de Satanás (Ap. 20)

A prisão de satanás é entendida como sua perda de influência no mundo, mediante o avanço do cristianismo (Augustus H. Strong).[12] Sua soltura, no final dos tempos, aponta para uma fase na qual Satanás terá novamente permissão para exercer seu poder de forma total, ao instalar o último conflito (Augustus H. Strong).[13]  Para alguns autores, essa prisão também é entendida de modo gradual, ou seja, um processo, que começou na a Primeira Vinda de Cristo (Mt 12.26-29; Hb 2.14; Jo 12.31; 16.13), ou ainda começará em um data futura.

 

6) Primeira Ressureição (Ap. 20)

A primeira ressureição é definida pelos expositores pós-milenistas de diferentes maneiras.[14] Uma visão mais antiga, de Daniel Whitby, seguida por A. A. Hodge no século XIX e James Snowden no início do século XX, é a de que a primeira ressurreição refere-se a ao “renascimento do espírito de mártir”.[15] Rushdoony entende que, assim como muitos amilenistas, a primeira ressurreição é uma maneira figurativa de se referir à regeneração do crente. Benjamin B. Warfield entendia que a primeira ressurreição é a entrada no prazeres celestiais, e que Apocalipse 20 apresenta um quadro das almas dos redimidos reinando no céu.[16]  Augustus Strong, a entendeu da seguinte forma:

“A primeira ressureição (Ap 20.4-6) não é uma ressureição preliminar do corpo, no caso dos santos que já se foram, mas um período nos últimos dias da igreja militante em que, sob influencia especial do Espirito Santo, o espírito dos mártires aparecerá outra vez, a religião verdadeira em geral será reanimada e reavivada, e os membros das igrejas de Cristo terão tal consciência do seu poder em Cristo que, em uma medida até então sem precedente, triunfarão sobre os poderes do mal, tanto interiores como exteriores”.[17]

Para o pós-milenista, há apenas duas ressureições, a dos justos, no início do Milênio, e a dos ímpios, no fim do Milênio.[18]

 

7) Início e Fim do Milênio (Ap. 20)

Para alguns estudiosos, o Milênio equivale a toda a história da igreja[19], enquanto, para outros, não se pode determinar uma data específica, pois sua implantação é ou será um processo lento e gradual. Por exemplo, Lorraine Botternet diz que o Milênio ocorrerá em uma era futura.[20]

           

8) Visão Otimista Quanto à Conversão do Mundo

Os pós-milenistas possuem um visão bem otimista quanto à conversão de todo o mundo. Eles esperam um grande desenvolvimento moral e espiritual da sociedade, através da aceitação do Evangelho. Eles também entendem que o fim só acontecerá quanto o evangelho for pregado em todas as nações. Desta forma, acredita-se que a maioria das pessoas se converterá a Deus, uma conversão que refletirá em todas as áreas da sociedade, transformando o mundo. À medida que mais e mais pessoas se submeterem à vontade de Deus, o mundo se tornará um lugar melhor para viver, onde haverá paz, justiça, igualdade e prosperidade. O pecado e qualquer rejeição ao evangelho se tornará uma exceção.[21]

 

9) Teonomia, Reconstrucionismo e Teologia do Domínio

Esse movimento é recente, começando com Rousas John Rushdoony, que, em 1973, publicou o livro “Institutes for the Law”, cujo conteúdo era uma exposição dos 10 mandamentos.[22] Outros autores recentemente defendem essa visão: Gary North, Gary DeMar, Larry Pratt, Greg Bahnsen.

A Teonomia também recebe o nome de “Teologia do Domínio” ou “Reconstrucionismo Cristão”. A maioria dos teonomistas se define como calvinistas e pressuposicionalistas.[23] Vale observar também que a maioria defende uma visão preterista das principais profecias bíblicas.[24]

A diferença entre o teonomista e os demais pós-milenistas é a ênfase no retorno à Lei Civil do AT. Daí surge o nome teonomia que vem de duas palavras gregas teos (Deus) e nomia (Lei).[25] Esse movimento também é chamado de “Teologia do Domínio”, pois acredita que o homem precisa levar a sério o comando de Deus de dominar sobre a criação; isso significa que toda a sociedade, em todas as suas áreas (social, moral, política, judicial, militar, arte, educação, música etc.), e toda a criação devem estar sob o domínio de Deus. A sociedade como um todo precisa ser “reconstruída” de acordo as Leis de Deus (reconstrucionísmo).

Diferentemente das escatologias utópicas marxistas (Teologia da Esperança e Teologia da Libertação), os reconstrucionistas não são revolucionários, que agem através da força humana ou de armas. Eles acreditam no poder do Espírito Santo e na pregação do evangelho para o estabelecimento do Milênio.

Os teonomistas não necessariamente concordam na maneira como a Lei Civil deve ser aplicada. Por exemplo, existem autores que defendem a pena de morte como condenação para atos homossexuais, adultério, feitiçaria e blasfêmia, enquanto outros, não. Por exemplo, Rousas Rushdoony, proponente deste movimento, defende em seu livro “Institutes of Biblical Law” que a legislação civil da Bíblia deve ser aplicada a “todas as sociedades, em todas as eras. Nesse sentido, a tarefa dos cristãos seria reconstruir uma sociedade formada à luz da lei de Deus, pela pregação do evangelho e por esforços de pressão e persuasão junto ao governo e legisladores.”[26]

COREL - VISOES DO MILENIO2


Notas:

[1]Benware, Paul (2006-05-01). Understanding End Times Prophecy: A Comprehensive Approach (Kindle Locations 3089-3093).

[2] Horton, Michael S. The Christian Faith (Kindle Locations 24513-24515).

[3] Tanto Sanley Gentry como Lorraine Boattener apontam Agostinho com um autor pós-milenista.

[4] Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology (Kindle Location 8602).

[5] Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology (Kindle Location 8602).

[6] MacArthur, J. F., Jr. (2000). Revelation 12–22 (p. 230). Chicago: Moody Press.

[7] Ryrie, Charles. Basic Theology (Kindle Location 8398).

[8] Hitchcock, Mark. The End (p. 406).

[9] Millard Erickson. Opções Contemporâneas na Escatologia. Pg 49

[10] Citado Enns, Paul. The Moody Handbook of Theology (Kindle Locations 8604-8607).

[11] Robert Culver. Teologia Sistemática, Bíblica e Histórica. Pg 1501

[12] Augustus H. Strong. Systematic Theology. Pg 1013

[13] Augustus H. Strong. Systematic Theology. Pg 1013

[14]Gregg, S. (1997). Revelation, four views : A parallel commentary (Ap 20:4-6). Nashville, Tenn.: T. Nelson Publishers.

[15]Gregg, S. (1997). Revelation, four views : A parallel commentary (Ap 20:4-6). Nashville, Tenn.: T. Nelson Publishers.

[16]Gregg, S. (1997). Revelation, four views : A parallel commentary (Ap 20:4-6). Nashville, Tenn.: T. Nelson Publishers.

[17] Augustus H. Strong. Systematic Theology. Pg 1013

[18] Millard Erickson. Escatologia: A Polêmica em Torno do Milênio. Pg 180

[19] Stanley Gentry. Pós-milesnimo: um resumo. <http://www.monergismo.com/ken-gentry/pos-milenismo-um-resumo/> (acesso 12/01/2015)

[20] Lorraine Boettner. Pós-Milenismo. <http://www.monergismo.com/textos/pos_milenismo/posmilenismo9_boettner.htm> (acesso 13/01/2015)

[21] Timothy Paul Jones. Rose Guide To End-Time Prophecy. Pg 295

[22] Christian Reconstructionism. <https://carm.org/christian-reconstructionism-theonomy> (12/02/2015)

[23] Christian Reconstructionism. <https://carm.org/christian-reconstructionism-theonomy> (12/02/2015)

[24] Dominian Thoelogy. <http://www.rapidnet.com/~jbeard/bdm/Psychology/cor/dominion.htm> (12/02/2015)

[25] Benware, Paul (2006-05-01). Understanding End Times Prophecy: A Comprehensive Approach (Kindle Locations 3250-3253).

[26] Solano Portela. Os teonomistas mordem? ou “Reconstrucionismo para leigos” http://tempora-mores.blogspot.com/2008/03/ os-teonomistas-mordem-ou.html

 


Autor: Leonardo Costa